A princesa salva a si mesma neste livro

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Título original: the princess saves herself in this one
Copyright © 2017 Amanda Lovelace
Tradução para a língua portuguesa © 2017, Casa da Palavra/LeYa, Izabel
Aleixo
Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610, de 19.02.1998.
É proibida a reprodução total ou parcial sem a expressa anuência da editora e
da autora.
Preparação: Lina Rosa
Revisão: Cris Cessim Caz
Capa: Leandro Dittz
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Angélica Ilacqua CRB-8/7057
Lovelace, Amanda
A princesa salva a si mesma neste livro / Amanda Lovelace ; tradução de
Izabel Aleixo. – Rio de Janeiro : LeYa, 2017.
ISBN 978-85-441-0659-4
Título original: The Princess Saves Herself in This One
1. Poesia Norte-Americana. 2. Autorrealização (Psicologia) em Mulheres –
Poesia. 3. Mulheres – Poesia. 4. Feminismo. I. Título. II. Aleixo, Izabel.
17-1476 CDD 811.6
Índices para catálogo sistemático:
1. Poesia Norte-Americana

Todos os direitos reservados à
EDITORA CASA DA PALAVRA
Avenida Calógeras, 6 | sala 701
20030-070 — Rio de Janeiro — RJ
www.leya.com.br

para o menino que sobreviveu.
obrigada por me inspirar a ser
a garota que resistiu.
você tem
um raio na testa
para mostrar isso,
e meu corpo inteiro é
uma tempestade.

sumário
I. a princesa
II. a donzela
III. a rainha
IV. você

aviso I:
este livro não é
um conto de fadas.
não há nenhuma
princesa.
não há nenhuma
donzela.
não há nenhuma
rainha.
não há nenhuma
torre.
não há
dragões.
há apenas
uma garota
diante da
difícil tarefa
de aprender a
acreditar
nela mesma.

aviso II:
final feliz
à frente.

aqui jazem
as cruas
não lapidadas,
& na sua maioria
desarticuladas
partes da
minha alma.

ah, a vida…
a coisa
que acontece
conosco
enquanto estamos distraídos
em algum outro lugar
soprando
dentes-de-leão
& desejando
estar nas
páginas do
nosso conto de fadas
favorito.

era uma vez…

I. a princesa

a princesa eu nasci
meio louca por livros.
podiam me encontrar acariciando
as lombadas dos meus livros
sozinha, trancada dentro
da minha torre do meu quarto.
o tempo todo, eu esperava que meus livros
derramassem suas palavras delicadas
sobre o exuberante tapete verde
para que eu pudesse recolhê-las uma a uma
e saboreá-las como se fossem
frutas vermelhas na minha boca.
– para sempre colecionadora de palavras.

quando eu não
tinha amigos
entrava nos
meus livros
amados
& esculpia alguns
com times new roman
corpo 12.
– & isso era quase bom o bastante.

a garotinha
não está escutando…
está muito, muito ocupada
olhando pela janela,
fantasiando sobre
um mundo de
acontecimentos mágicos,
envelopes voadores,
corujas que piam,
gigantes adorados,
vassouras que
fazem mais do que varrer,
amigos que são
sempre leais,
& um trem
que a levará
para um lugar encantado
muito muito muito
longe
daqui.
– sob um feitiço perpétuo.

a rainha
minha mãe
sorria
ao me oferecer
um torrão de
açúcar
na
palma da mão.
avidamente,
eu aceitava.
abria
minha boca,
e delicadamente colocava um
(apenas um)
no centro
da minha língua,
& eu o
apertava.
sal.
isso é o que chamo de abuso:
saber que você vai
receber sal,
e ainda esperar receber açúcar
durante dezenove anos.
– você pode ter ido embora, mas ainda tenho dor
no estômago.

uma noite
a princesa
eu
a princesa
eu
a princesa
eu
a princesa acordou
sentindo o castelo balançar
  para trás & para frente
para trás & para frente
    para trás & para frente
  para trás & para frente
para trás & para frente
      para trás & para frente
  para trás & para frente
para trás & para frente
           para trás & para frente
primeiro
ela pensou
um furação
deve estar passando,
mas estava
errada.
aonde
todas as
memórias vão,
aquelas que

escondemos
à chave
& tranca
mas estão
a nos moldar
do mesmo
jeito?
– se não me lembro, isso aconteceu?

aos onze anos
o médico me pesou
& em seguida,
minha mãe me disse
que eu estava muito gorda
& precisava fazer
uma dieta
imediatamente.
por um ano inteiro,
a comida mal passou
pelos meus lábios.
eu nem permitia a mim mesma
tomar um gole de água
porque queria ser
tão magra que
pudesse ser carregada
pela brisa mais suave…
desaparecer.
perdi vinte e sete quilos
em poucos meses
& tinha que usar mangas compridas
para cobrir minha
única catarse.
– no entanto, todo mundo me dizia como eu
estava ótima.

existem
algumas mães
que vão lhe avisar
para nunca, jamais,
(nunca nunca)
encostar no fogão,
mas existem
algumas mães que
vão arrastar você para lá,
pulando & dando gritinhos,
& rindo
enquanto
assistem às chamas
lamberem a ponta
dos seus dedos.
– quando lhe ensinam a ver o mundo através do
fogo, nada parece seguro.

“solicitação de amizade ____________”
a) da garota que disse que você era feia.
b) da garota que disse que sua voz era desafinada.
c) da garota que se recusou a defender você.
d) da garota que riu de você pelas suas costas & na sua cara.
e) da garota que roubava o dinheiro do seu lanche todos os dias porque dizia
que você não precisava comer.
f) da garota que dizia que você era “gorda” mesmo depois de você quase
morrer de fome.
g) da garota que supostamente era sua melhor amiga.
h) todas as respostas acima.
– continue ignorando, querida.

gorda
(gor.da) [ô]
adjetivo
1: palavra descritiva.
  não tem nenhum significado profundo.
  não deve determinar
  o valor
  (ou a falta de)
  de um ser humano.
– o que sei agora que gostaria de saber então.

paus & pedras
nunca quebraram
                 meus ossos,
mas palavras
fizeram eu
me deixar morrer de fome
até
                 você poder
                 ver todos eles.
– pele & osso.

minha irmã & eu
passávamos as noites
desejando
as estrelas
de plástico,
que brilhavam no escuro
no nosso
teto.
– afinal de contas nós as colamos lá.

não havia
nunca
álcool o bastante
para manter mamãe aquecida
numa casa
tão fria quanto
essa.
– mas você continuava tentando, não?

você não deve
nunca amar
           nada
mais do que
ama
seus próprios
filhos.
você não deve
nunca amar
           ninguém
mais do que
ama
seus próprios
filhos.
– como você pôde?

agora que
penso sobre isso,
ela sempre
fez questão
de que eu a visse
arrancando
o balão
da minha mão
&
deixando-o
voar para longe.

havia
uma vez
seis cinco
garotas
que
dividiam
cada parte
delas mesmas
sangue
&
segredos
&
amores
&
até mesmo
um diário.
mas
uma garota
pode apenas
sangrar
muito
antes de
encontrar
seu próprio óbito.
– vejo você na califórnia.

como pode
alguém
ser
jovem demais
para se
apaixonar
quando somos
feitos
de
ondas do mar
& luz de estrelas?
– um amor jovem.

uma manhã
acordei
com meus lençóis do menino bruxo
preferidos
manchados
de sangue.
implorei para
não acontecer,
& de repente
era como se
meu corpo não
fosse mais meu
mas de todo
mundo.
– não mudou muito desde então.

meu primeiro beijo:
            à força
            imobilizada,
            uma boca
            repetindo
            não não não.
depois:
            manchas roxas
            &
            o inconfundível
            gosto de
            sangue.
– nunca vou perdoar você.

você se
tornou o
astro
de todo
& qualquer
um dos
meus
pesadelos.
– você foi embora mas ficou.

sinto muito
por
não ser
a filha
que você tinha
em mente.
– só queria que você se orgulhasse de mim.

I.
a visão
do fio vermelho
desenhado
pela
lâmina
de aço.
II.
o
jeans
antes muito apertado
sambando
no
meu corpo.
– dois alívios inesperados para uma garota.

é estranho
como
        i
        r
        m
        ã
        s
podem
ser
        i
        n
        d
        i
        s
        p
        e
        n
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        á
        v
        e
        i
        s
ou
        i
        n
        i
        m
        i
        g
        a

        s
& às vezes
um pouco das duas coisas.
– irmãs.

havia
alguns segredos
que ameaçavam
despedaçar
minhas
peças de porcelana
mas era preciso
me manter
inteira.
– eu não sabia nada.

– o silêncio sempre foi meu grito mais alto.

a princesa conta:
1. as cicatrizes no seu joelho.
2. o número de vezes em que o balanço vai lá no céu.
3. os livros na sua estante.
4. os fios soltos na sua blusa.
5. as letras nas suas palavras.
6. as telhas no teto.
7. os segundos que passam por ela.
8. os deveres de casa esquecidos.
9. as horas que faltam para ela voltar para cama.
10. os quilos na balança.
11. o número de vezes que ela mastiga.
12. a som suave dos seus passos.
13. as marcas de contar que faz no seu corpo.
14. os fios de cabelos que caem.
15. as estrelas que se apagam.
& depois começa de novo.
& depois começa de novo.
& depois começa de novo.
& depois começa de novo.
& depois ela começa de novo.
pássaros
não podem
voar
quando você
corta
uma das
suas asas.
você

não ficou
satisfeita
em cortar
apenas
uma das
minhas asas.
você tosou
as duas
bem perto
da raiz
para ter certeza
de que eu
nunca mais voasse
para nenhum lugar
jamais
outra vez.
– mãe & filha.

como
eu não tinha
mais
minhas asas
usava
umas
falsas
cobertas
de glitter
dourado.
– uma aspirante a fada ao contrário.

chegou
um tempo
em que
a poesia
me mostrou
como
sangrar
sem
a necessidade
de sangue.
– meu amor mais leal.

costumava pensar
que estava doente
porque
nunca na vida
fiquei
sonhando acordada
que comia
romãs suculentas
da árvore
de outra pessoa.
– depois aprendi que a sociedade é que
está doente, não eu.

observar
a casa
que era
meu santuário
& meu inferno
se consumir
em chamas
foi
triste e alegre
mas muito mais
apenas
alegre.
– uma confissão.

se uma casa
não é
automaticamente
um lar,
então um corpo
também
não é
automaticamente
um lar.
– sempre me senti uma estranha na minha
própria pele.

ela começa
a rasgar
as páginas
dos
seus livros
favoritos
& a enfiar freneticamente
a maçaroca de palavras
na boca,
rezando que fosse verdade
o fato de você ser
o que come
enquanto suga
o sabor da tinta da
ponta de seus dedos enegrecidos.
– não posso ser apenas uma garota de papel com
uma vida de papel?

você pode
não ter deixado
(muitas) manchas roxas
na minha pele,
mas deixou manchas
roxas escuras gigantes
por toda
minha alma.
– ainda me pergunto quem eu deveria ter sido.

a princesa
fechou a si mesma longe
na torre mais alta,
esperando um cavaleiro
de armadura brilhante
que viria para
resgatá-la.
– não me dava conta de que podia ser meu próprio cavaleiro.

II. a donzela

a donzela
deixou que os dragões
descessem do céu
& a levassem para longe
da feiura
do seu mundo.
sem saber,
ela estava apenas trocando
uma torre
pela outra.
– os mentirosos mais perversos de todos.

não tenho medo
dos monstros
escondidos debaixo
da minha cama.
tenho medo
dos garotos
com cabelos castanhos despenteados,
olhos apertados,
& bocas
que só sabem
como dizer
meias verdades.
– meus dragões.

se lembra quando
você me disse
que escreveu aquela
canção linda
para mim
& apenas para mim…
a sua
“única”?
bem,
posso
apostar
que você não
se lembra
de que já tinha
me mostrado a letra,
dizendo que era
para ela.
– você estava apaixonado pela ideia do amor, não
por mim.

promessas
sussurradas
na chuva
serão levadas pela
á
g
u
a.
– direto para a porra do ralo.

eu era a única coisa
que ele tinha que negar…
a verdade bela
dentro da
terrível mentira dele.
– quem sabia que um coração tão jovem poderia
se partir?

quando
meu dragão
de olhos
verdes
foi embora,
eu
peguei
uma faca
& cortei
meu cabelo
longo e lindo,
tirando
a única coisa
que
ele
amava
em
mim.
– terminou antes de começar.

“eu
podia
fácil
engolir
você
inteira.”
– da boca insaciável do lobo mau.

ele me ama.
ele não me ama.
            ele a ama.
            ele não a ama.
ele me ama.
ele não me ama.
            ele a ama.
            ele não a ama.
ele me ama.
ele não me ama.
            ele a ama.
            ele não a ama.
ele me ama.
ele não me ama.
            ele a ama.
            ele não a ama.
ele me ama.
ele não me ama.
– eu ia arrancando as pétalas.

o sangue
corria
toda vez
que ele
me tocava
com a ponta
dos dedos.
– meu punhal & espinhos.

por um tempo
me parecia
que éramos
            iluminados pelas estrelas,
sem conseguir
perceber que
éramos na verdade
           amaldiçoados pelas estrelas.
– as estrelas nunca estiveram do nosso lado.

ele era feito de fogo
& eu era feita de gelo.
cheguei perto demais da
chama dele
& ele me derreteu
com suas brasas,
me reduzindo
a uma poça.
com o tempo
congelei de novo,
mas não era
mais a mesma…
uma imitação frágil e rala
do que eu era.
– onde estava o medo que eu sentia do fogo
quando cheguei perto de você?

“odeio você.”
– a versão dele para “amo você”.

quando
finalmente
chegou
a hora
de
ir embora,
ele
guardou
toda minha
poesia
numa
mala
& a levou
com
ele.
– primeiro meu coração, depois minhas palavras.

ele
prometeu
me consertar
&
            me deixou
mais
            destroçada
do que eu era
antes.
– mas agora tenho ouro nas rachaduras.

tenho que
acreditar
que chegará
o dia
em que não vou
            estremecer
toda vez
que ouvir
o nome dele.
– alguns nomes serão sempre malditos.

tenho
tanto amor
para dar,
mas ninguém
nunca
o quis.
– um copo transbordando.

se
o amor
é um
campo de batalha,
então eu
devo ter
esquecido
todas as
minhas armaduras
em
casa.
– uma guerra que nunca me dispus…

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