RENÉ DESCARTES
DISCURSO DO MÉTODO
PARA BEM CONDUZIR A PRÓPRIA RAZÃO
E PROCURAR A VERDADE NAS CIÊNCIAS
Tradução de Jacob Guinsburg e Bento Prado Jr.
Notas de Gérard Lebrun
— in Obras escolhidas. Introdução de Gilles-Gaston Granger; prefácio e notas de Gérard
Lebrun; tradução de Jacob Guinsburg e Bento Prado Jr. São Paulo: Difel – Difusão
Européia do Livro, 1962 (col. Clássicos Garnier);
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1973, pp. 39-103. A paginação aqui
indicada (|
39
) é a da 2ª ed. de 1973.
— Reproduzida na col. “Os Pensadores”. São Paulo: Abril Cultural, 1973, pp. #;
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1979, pp.
25-71. A paginação aqui indicada (|
25
) é a da 2ª ed. de 1979.
— Há algumas diferenças entre as duas edições quanto à pontuação, em especial vírgulas;
estão sublinhados os erros tipográficos da reprodução da col. “Os Pensadores”, assim como
as retificações aqui inseridas; as notas assinaladas com asterisco (*) não estavam
numeradas na ed. Difel, daí a diferença com relação à numeração das notas da ed. da col.
“Os Pensadores”.
[Original francês: Discours de la méthode, pour bien conduire la raison, & chercher la
vérité dans les sciences … Leiden: Jan Maire, 1637; in Œuvres de Descartes. Publiées par
Ch. Adam et P. Tannery. Paris: Éditions du Cerf, 1897-1913; reimpressão revista sob a dir.
de B. Rochot e P. Costabel. Paris: J. Vrin/CNRS, 1964-74, 11 vols.; reimpressão: Paris, J.
Vrin, 1996, 11 vols. O Discours encontra-se no vol. VI, pp. 1-78].
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DISCURSO DO MÉTODO
PARA BEM CONDUZIR A PRÓPRIA RAZÃO
E PROCURAR A VERDADE NAS CIÊNCIAS
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Advertência
Se este discurso parecer demasiado longo para ser lido de uma só vez, poder-se-á
dividi-lo em seis partes. E, na primeira, encontrar-se-ão diversas considerações atinentes
às ciências. Na segunda, as principais regras do método que o Autor buscou. Na terceira,
algumas das regras da Moral que tirou desse método. Na quarta, as razões pelas quais
prova a existência de Deus e da alma humana, que são os fundamentos de sua metafísica.
Na quinta, a ordem das questões de Física que investigou, e, particularmente, a
explicação do movimento do coração e algumas outras dificuldades que concernem à
Medicina, e depois também a diferença que há entre nossa alma e a dos animais. E, na
última, que coisas crê necessárias para ir mais adiante do que foi na pesquisa da natureza
e que razões o levaram a escrever.
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1. O primeiro título em que pensou o autor era: “Projeto de uma Ciência universal que possa elevar a
nossa natureza ao seu mais alto grau de perfeição. Mais os Meteoros, a Dióptrica e a Geometria, onde as mais
curiosas matérias que o autor pôde escolher para dar prova da ciência universal que ele propõe são tratadas de
tal modo que mesmo aqueles que não estudaram podem entendê-las”. Não se deve esquecer que a obra
constitui uma apenas uma Introdução, que perde muito de seu sentido quando separada dos três ensaios que
ela antecede.
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PRIMEIRA PARTE
[1] O bom senso é a coisa do mundo melhor partilhada, pois cada qual pensa estar
tão bem provido dele, que mesmo os que são mais difíceis de contentar em qualquer outra
coisa não costumam desejar tê-lo mais do que o têm. E não é verossímil que todos se
enganem a tal respeito; mas isso antes testemunha que o poder de bem julgar e distinguir o
verdadeiro do falso, que é propriamente o que se denomina o bom senso ou a razão, é
naturalmente igual em todos os homens; e, destarte, que a diversidade de nossas opiniões
não provém do fato de serem uns mais racionais do que outros, mas somente de
conduzirmos nossos pensamentos por vias diversas e não considerarmos as mesmas coisas.
Pois não é suficiente ter o espírito bom, o principal é aplicá-lo bem. As maiores almas são
capazes dos maiores vícios, tanto quanto das maiores virtudes, e os que só andam muito
lentamente podem avançar muito mais, se seguirem sempre o caminho reto, do que aqueles
que correm e dele se distanciam.
[2] Quanto a mim, jamais presumi que meu espírito fosse em nada mais perfeito do
que os do comum; amiúde desejei mesmo ter o pensamento tão rápido, ou a imaginação tão
nítida e distinta, ou a memória tão ampla ou tão presente, quanto alguns outros. E não sei
de quaisquer outras qualidades, exceto as que servem à perfeição do espírito; pois, quanto à
razão ou ao senso, posto que é a única coisa que nos torna homens e nos distingue dos
animais, quero crer que existe inteiramente em cada um, e seguir nisso a opinião comum
dos filósofos, que dizem não haver mais nem menos senão entre os acidentes, e não entre
as formas ou naturezas dos indivíduos de uma mesma espécie
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[3] Mas não temerei dizer que penso ter tido muita felicidade de me haver
encontrado, desde a juventude, em certos caminhos, que me conduziram a considerações e
máximas, de que formei um método, pelo qual me parece que eu tenha meio de aumentar
gradualmente meu conhecimento, e de alçá-lo, pouco a pouco, ao mais alto ponto, a que a
mediocridade de meu espírito e a curta duração de minha vida lhe permitam atingir
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. Pois
já colhi dele tais frutos que, embora no juízo que faço de mim próprio eu procure pender
mais para o lado da desconfiança do que para o da presunção, e que, mirando com um
olhar de filósofo as diversas ações e empreendimentos de todos os homens, não haja quase
nenhum que não me pareça vão e inútil, não deixo de obter extrema |
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satisfação do
2. É acidente o que pertence a um ser sem pertencer à sua essência. — “Os filósofos” designam, como
sempre em Descartes, os escolásticos.
3. Cf. a definição de sabedoria (assimilada à ciência) no Prefácio dos Princípios: “O perfeito
conhecimento de todas as coisas que o homem pode saber, tanto para a conduta da vida quanto para a
conservação da saúde e a invenção de todas as artes”.
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progresso que penso já ter feito na busca da verdade e de conceber tais esperanças para o
futuro que, se entre as ocupações dos homens puramente homens
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, há alguma que seja
solidamente boa e importante, ouso crer que é aquela que escolhi.
[4] Todavia, pode acontecer que me engane, e talvez não passe de um pouco de cobre
e vidro o que eu tomo por ouro e diamantes. Sei como estamos sujeitos a nos equivocar no
que nos tange, e como também nos devem ser suspeitos os juízos de nossos amigos,
quando são a nosso favor. Mas estimaria muito mostrar, neste discurso, quais os caminhos
que segui, e representar nele a minha vida como num quadro, para que cada qual possa
julgá-la e que, informado pelo comentário geral das opiniões emitidas a respeito dela, seja
este um novo meio de me instruir, que juntarei àqueles de que costumo me utilizar.
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[5] Assim, o meu desígnio não é ensinar aqui o método que cada qual deve seguir
para bem conduzir sua razão, mas apenas mostrar de que maneira me esforcei por conduzir
a minha. Os que se metem a dar preceitos devem considerar-se mais hábeis do que aqueles
a quem as dão; e, se falham na menor coisa, são por isso censuráveis. Mas, não propondo
este escrito senão como uma história, ou, se o preferirdes, como uma fábula, na qual, entre
alguns exemplos que se podem imitar, se encontrarão talvez também muitos outros que se
terá razão de não seguir, espero que ele será útil a alguns, sem ser nocivo a ninguém, e que
todos me serão gratos por minha franqueza.
[6] Fui nutrido nas letras
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desde a infância, e por me haver persuadido de que, por
meio delas, se podia adquirir um conhecimento claro e seguro de tudo o que é útil à vida,
sentia extraordinário desejo de aprendê-las. Mas, logo que terminei esse curso de estudos,
ao cabo do qual se costuma ser recebido na classe dos doutos, mudei inteiramente de
opinião. Pois me achava enleado em tantas dúvidas e erros, que me parecia não haver
obtido outro proveito, procurando instruir-me, senão o de ter descoberto cada vez mais a
minha ignorância. E, no entanto, estivera numa das mais célebres escolas da Europa
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, onde
pensava que deviam existir homens sapientes, se é que existiam em algum lugar da Terra.
Aprendera aí tudo o que os outros aprendiam, e mesmo, não me tendo contentado com
ciências que nos ensinavam, percorrera todos os livros que tratam daquelas que são
4. Os “homens puramente homens” são homens considerados ao nível da exclusiva “luz natural”,
abstraindo-se qualquer assistência que Deus possa proporcionar-lhes. É doutrina constante em Descartes que
o filósofo deva deixar ao teólogo toda investigação do sobrenatural: “Para o filósofo, basta considerar o
homem na medida em que, nas coisas naturais, só depende de si; e eu, de meu lado, escrevi minha filosofia
de modo que possa ser recebida em toda parte, mesmo entre os turcos, e que eu não cause escândalo a
ninguém” (Col. com Burman, A.T. VI, 550). “Não devemos submeter a teologia a raciocínios”.
5. Isto é: a Gramática, a História, a Poesia, a…





