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“Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando
por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo
nível.”
COLEÇÃO DAS OBRAS DE NIETZSCHE
Coordenação de Paulo César de Souza
Além do bem e do mal — Prelúdio a uma filosofia do futuro
O Anticristo — Maldição ao cristianismo e
Ditirambos de Dionisio
Assim falou Zaratustra — Um livro para todos e para ninguém
Aurora — Reflexões sobre os preconceitos morais
O caso Wagner — Um problema para músicos
e Nietzsche contra Wagner — Dossiê de um psicólogo
Crepúsculo dos ídolos — ou Como se filosofa com o martelo
Ecce homo — Como alguém se torna o que é
A gaia ciência
Genealogia da moral — Uma polêmica
Humano, demasiado humano — Um livro para espíritos livres
Humano, demasiado humano — Um livro para espíritos livres — volume II
O nascimento da tragédia — ou Helenismo e pessimismo
SUMÁRIO
PRIMEIRA PARTE
Prólogo de Zaratustra
Os discursos de Zaratustra
Das três metamorfoses
Das cátedras da virtude
Dos trasmundanos
Dos desprezadores do corpo
Das paixões alegres e dolorosas
Do criminoso pálido
Do ler e escrever
Da árvore na montanha
Dos pregadores da morte
Da guerra e dos guerreiros
Do novo ídolo
Das moscas do mercado
Da castidade
Do amigo
Das mil metas e uma só meta
Do amor ao próximo
Do caminho do criador
Das velhas e novas mulherezinhas
Da picada da víbora
Dos filhos e do matrimônio
Da morte voluntária
Da virtude dadivosa
SEGUNDA PARTE
O menino com o espelho
Nas ilhas bem-aventuradas
Dos compassivos
Dos sacerdotes
Dos virtuosos
Da gentalha
Das tarântulas
Dos sábios famosos
O canto noturno
O canto da dança
O canto dos sepulcros
Da superação de si mesmo
Dos sublimes
Do país da cultura
Do imaculado conhecimento
Dos eruditos
Dos poetas
Dos grandes acontecimentos
O adivinho
Da redenção
Da prudência humana
A hora mais quieta
TERCEIRA PARTE
O andarilho
Da visão e enigma
Da bem-aventurança involuntária
Antes do nascer do sol
Da virtude que apequena
No monte das oliveiras
Do passar além
Dos apóstatas
O regresso
Dos três males
Do espírito de gravidade
De velhas e novas tábuas
O convalescente
Do grande anseio
O outro canto da dança
Os sete selos
QUARTA PARTE
A oferenda do mel
O grito de socorro
Conversa com os reis
A sanguessuga
O feiticeiro
Aposentado
O mais feio dos homens
O mendigo voluntário
A sombra
No meio-dia
A saudação
A última ceia
Do homem superior
O canto da melancolia
Da ciência
Entre as filhas do deserto
O despertar
A festa do asno
O canto ébrio
O sinal
Notas
Posfácio
PRIMEIRA PARTE
PRÓLOGO DE ZARATUSTRA
1.
Aos trinta anos de idade, Zaratustra deixou sua pátria e o lago de sua
pátria e foi para as montanhas.1 Ali gozou do seu espírito e da sua solidão, e
durante dez anos não se cansou. Mas enfim seu coração mudou — e um dia
ele se levantou com a aurora, foi para diante do sol e assim lhe falou:
“Ó grande astro! Que seria de tua felicidade, se não tivesses aqueles que
iluminas?
Há dez anos vens até minha caverna: já te terias saciado de tua luz e
dessa jornada, sem mim, minha águia e minha serpente.
Mas nós te esperamos a cada manhã, tomamos do teu supérfluo e por
ele te abençoamos.
Olha! Estou farto de minha sabedoria, como a abelha que juntou
demasiado mel; necessito de mãos que se estendam.
Quero doar e distribuir, até que os sábios entre os homens voltem a se
alegrar de sua tolice e os pobres, de sua riqueza.
Para isso devo baixar à profundeza: como fazes à noite, quando vais para
trás do oceano e levas a luz também ao mundo inferior, ó astro abundante!
Devo, assim como tu, declinar,2 como dizem os homens aos quais
desejo ir.
Então me abençoa, ó olho tranquilo, capaz de contemplar sem inveja até
mesmo uma felicidade excessiva!
Abençoa a taça que quer transbordar, para que a água dela escorra
dourada e por toda parte carregue o brilho do teu enlevo!
Olha! Esta taça quer novamente se esvaziar, e Zaratustra quer novamente
se fazer homem.”
— Assim começou o declínio de Zaratustra.
2.
Zaratustra desceu sozinho pela montanha, sem deparar com ninguém.
Chegando aos bosques, porém, viu subitamente um homem velho, que havia
deixado sua cabana sagrada para colher raízes na floresta. E assim falou o
velho a Zaratustra:
“Não me é estranho esse andarilho: por aqui passou há muitos anos.
Chamava-se Zaratustra; mas está mudado.
Naquele tempo levavas tuas cinzas para os montes: queres agora levar
teu fogo para os vales? Não temes o castigo para o incendiário?
Sim, reconheço Zaratustra. Puro é seu olhar, e sua boca não esconde
nenhum nojo. Não caminha ele como um dançarino?
Mudado está Zaratustra; tornou-se uma criança Zaratustra, um
despertado3 é Zaratustra: que queres agora entre os que dormem?
Vivias na solidão como num mar, e o mar te carregava. Ai de ti, queres
então subir à terra? Ai de ti, queres novamente arrastar tu mesmo o teu
corpo?”
Respondeu Zaratustra: “Eu amo os homens”.
“Por que”, disse o santo, “fui para o ermo e a floresta? Não seria por
amar demais os homens?
Agora amo a Deus: os homens já não amo. O homem é, para mim, uma
coisa demasiado imperfeita. O amor aos homens me mataria.”
Respondeu Zaratustra: “Que fiz eu, falando de amor? Trago aos homens
uma dádiva”.
“Não lhes dês nada”, disse o santo. “Tira-lhes algo, isto sim, e carrega-o
juntamente com eles — será o melhor para eles: se for bom para ti!
E, querendo lhes dar, não dês mais que uma esmola, deixando ainda que
a mendiguem!”
“Não”, respondeu Zaratustra, “não dou esmolas. Não sou pobre o bastante
para isso.”
O santo riu de Zaratustra, e falou assim: “Então cuida para que recebam
teus tesouros! Eles desconfiam dos eremitas e não acreditam que viemos para
presentear.
Para eles, nossos passos ecoam solitários demais pelas ruas. E, quando,
deitados à noite em suas camas, ouvem um homem a caminhar bem antes
de nascer o sol, perguntam a si mesmos: aonde vai esse ladrão?
Não vás para junto dos homens, fica na floresta! Seria até melhor que
fosses para junto dos animais! Por que não queres ser, como eu — um urso
entre os ursos, um pássaro entre os pássaros?”
“E o que faz o santo na floresta?”, perguntou Zaratustra.
Respondeu o santo: “Eu faço canções e as canto, e, quando faço canções,
rio, choro e sussurro: assim louvo a Deus.
Cantando, chorando, rindo e sussurrando eu louvo ao deus que é meu
Deus. Mas o que trazes de presente?”
Ao ouvir essas palavras, Zaratustra saudou o santo e falou: “Que poderia
eu vos dar? Deixai-me partir, para que nada vos tire!” — E assim se
despediram um do outro, o idoso e o homem, rindo como riem dois meninos.
Mas, quando Zaratustra se achou só, assim falou para seu coração:4
“Como será possível? Este velho santo, na sua floresta, ainda não soube que
Deus está morto!”.
3.
Quando Zaratustra chegou à cidade mais próxima, na margem da
floresta, ali encontrou muita gente reunida na praça; pois fora anunciado que
um equilibrista5 andaria na corda. E Zaratustra assim falou à gente:
Eu vos ensino o super-homem.6 O homem é algo que deve ser superado.
Que fizestes para superá-lo?
Todos os seres, até agora, criaram algo acima de si próprios: e vós
quereis ser a vazante dessa grande maré, e antes retroceder ao animal do
que superar o homem?
Que é o macaco para o homem? Uma risada, ou dolorosa vergonha.
Exatamente isso deve o homem ser para o super-homem: uma risada, ou
dolorosa vergonha.
Fizestes o caminho do verme ao homem, e muito, em vós, ainda é
verme. Outrora fostes macacos, e ainda agora o homem é mais macaco do
que qualquer macaco.7
O mais sábio entre vós é apenas discrepância e mistura de planta e
fantasma. Mas digo eu que vos deveis tornar fantasmas ou plantas?
Vede, eu vos ensino o super-homem!
O super-homem é o sentido da terra. Que a vossa vontade diga: o super-
homem seja o sentido da terra!
Eu vos imploro, irmãos, permanecei fiéis à terra e não acrediteis nos que
vos falam de esperanças supraterrenas! São envenenadores, saibam eles ou
não.
São desprezadores da vida, moribundos que a si mesmos envenenaram, e
dos quais a terra está cansada: que partam, então!
Uma vez a ofensa a Deus era a maior das ofensas, mas Deus morreu, e
com isso morreram também os ofensores. Ofender a terra é agora o que há
de mais terrível, e considerar mais altamente as entranhas do inescrutável do
que o sentido da terra!
Uma vez a alma olhava com desprezo para o corpo: e esse desdém era
o que havia de maior: — ela o queria magro, horrível, faminto. Assim
pensava ela escapar ao corpo e à terra.
Oh, essa alma mesma era ainda magra, horrível e faminta: e a crueldade
era a volúpia dessa alma!
Mas também vós, irmãos, dizei-me: o que conta vosso corpo sobre vossa
alma? Não é ela pobreza, imundície e lamentável satisfação?
Na verdade, um rio imundo é o homem. É preciso ser um oceano para
acolher um rio imundo sem se tornar impuro.
Vede, eu vos ensino o super-homem: ele é este oceano, nele pode
afundar o vosso grande desprezo.
Qual é a maior coisa que podeis experimentar? É a hora do grande
desprezo. A hora em que também vossa felicidade se converte em nojo para
vós, assim como vossa razão e vossa virtude.
A hora em que dizeis: “Que importa minha felicidade? Ela é pobreza,
imundície e lamentável satisfação. Mas minha felicidade deveria justificar a
própria…





