Dagon – H.P. Lovecraft

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Dagon
H.P. Lovecraft

Introdução
O conto “Dagon” foi escrito em 1917, quando Lovecraft
estimulado por amigos resolve retomar seus trabalhos de ficção.
Este conto é intimamente ligado a “The Shadow Over Innsmouth
” que ele veio há escrever 14 anos depois. Este último conto trata
de um rapaz que vai a assombrada e deserta vila de pescadores
de Innsmouth investigar e descobre que seus moradores tem
estranhas relações com os deep ones, anfíbios humanoides que
imitem um repugnante odor de peixe e se comunicam com
humanos através dos sonhos. Há anos atrás a cidade fora
tomada por influências de forasteiros que trouxeram a adoração
de Dagon e a maldição ao lugar. Os humanos cada vez mais
assumiam formas de peixe até estarem prontos para entrar na
cidade ciclópica submersa de Dagon de nome Y’há-nthlei. Na
vila os estranhos são mortos cruelmente e as mulheres
oferecidas ao deus maligno para satisfazer e carregar o fruto da
cruel criatura. Tais histórias de fundo marítimo parecem revelar
forte influência do escritor inglês William Hope Hodgson (1877 –
1918) e suas histórias fantástica tendo o mar como ambientação.
“Dagon” foi filmado em 2001 pelo diretor Stuart Gordon, se
baseando principalmente no conto sobre a vila de Innsmouth e
tido por fãs de Lovecraft ao redor do mundo como o filme mais
completo e bem feito sobre suas histórias.
DAGON

ESCREVO ISSO DEBAIXO de uma tensão mental considerável já
que esta noite poderei não estar mais vivo. Se um centavo e no
final de meu suprimento da droga que, só ela, consegue tornar
minha vida tolerável, já não consigo suportar a tortura e irei
atirar-me dessa janela de sótão na rua esquálida lá em baixo.
Não pensem que minha dependência da morfina tenha-me
tornado um fraco ou degenerado. Quando houverem lido estas
páginas rabiscadas às pressas, poderão imaginar, mesmo sem
nunca perceber plenamente, por que preciso do olvido ou da
morte.
Foi num dos trechos mais abertos e pouco frequentados do vasto
Pacífico que o paquete onde eu era comissário de bordo foi
capturado pelo vaso de guerra alemão. A grande guerra estava,
então, em seu início, e as forças marítimas do bárbaro ainda não
haviam mergulhado por completo em sua posterior degradação.
Sendo assim, nossa embarcação foi tomada como legítima
presa, enquanto nós, membros de sua tripulação, fomos
tratados com toda a equidade e consideração que nos eram
devidas como prisioneiros navais. Era tão liberal, de fato, a
disciplina de nossos captores, que cinco dias depois de nos
tomarem, consegui escapar, sozinho, num pequeno barco
equipado com água e provisões para muito tempo.
Quando enfim me vi livre e à deriva, não tinha muita noção de
minha localização. Como nunca havia sido um navegador
experiente, eu só podia imaginar, vagamente, pelo sol e as
estrelas, que estava um pouco ao sul do Equador. Da latitude eu
nada sabia, e não havia ilha nem linha costeira à vista. O tempo
manteve-se firme e durante dias sem conta eu vaguei sem
destino debaixo de um sol escaldante, esperando a passagem de
algum navio ou ser atirado às praias de alguma terra inabitável.

Mas não surgiu navio nem terra e comecei a me desesperar em
minha solidão sobre a ondulante vastidão de interminável azul.
A mudança aconteceu enquanto eu dormia. Seus detalhes eu
jamais saberei, pois, embora agitado e povoado de sonhos, tive
um sono contínuo. Quando afinal despertei, descobri-me meio
tragado pela extensão lamacenta de um infernal lodo negro que
se estendia à minha volta em monótonas ondulações até onde
minha vista alcançava e onde, a certa distância, estava enterrado
meu barco.
Embora se possa perfeitamente imaginar que minha primeira
sensação seria de espanto com uma transformação tão
prodigiosa e inesperada de cenário, eu, na verdade, fiquei mais
horrorizado do que espantado, pois havia no ar e no solo
putrefato um caráter sinistro que me arrepiou até o âmago de
meu ser. A região toda fedia com as carcaças de peixes
apodrecidos e outras coisas menos descritíveis que eu vi
projetadas da lama abjeta da interminável planície. Talvez eu não
devesse esperar transmitir em meras palavras a indizível
repugnância que pode existir num silêncio absoluto e numa
imensidão estéril. Não havia nada ao alcance do ouvido e da
visão, salvo uma vasta extensão de lodo preto, mas ainda assim
o caráter absoluto do silêncio e a homogeneidade da paisagem
me oprimiram com um medo nauseante.
O sol ardia no alto de um céu sem nuvens que me parecia quase
negro em sua impiedade, com se refletisse o pântano escuro que
tinha embaixo de meus pés. Arrastando-me para dentro do barco
encalhado, percebi que apenas uma teoria poderia explicar
minha situação: por algum tipo de erupção vulcânica sem
precedentes, parte do leito do oceano devia ter sido impelida

para a superfície, expondo regiões que durante incontáveis
milhões de anos ficaram submersas debaixo de profundezas
aquáticas imensuráveis. Era tão grande a extensão da nova terra
que se elevava por baixo de mim, que não consegui captar o mais
tênue ruído do oceano, por mais que forçasse os ouvidos.
Também não havia qualquer ave marinha para pilhar as coisas
mortas.
Durante muitas horas, eu fiquei sentado, pensando e ruminando,
no barco que estava caído de lado e produzia um pouco de
sombra à medida que o sol ia seguindo seu curso no céu. Com o
avanço do dia, o chão foi ficando menos pegajoso, indicando que
ficaria seco o bastante para permitir que andasse sobre ele
dentro de pouco tempo. Dormi muito pouco naquela noite e, no
dia seguinte, preparei um farnel com água e comida para uma
excursão terrestre em busca do mar desaparecido e de um
possível resgate.
Na terceira manhã, verifiquei que o solo já estava bem seco e
permitiria que se caminhasse sem problemas sobre ele. O cheiro
de peixe era enlouquecedor, mas eu estava concentrado demais
em coisas sérias para me importar com desgraça tão pequena, e
parti ousadamente para um destino incerto. Caminhei a duras
penas durante o dia todo na direção oeste, guiado por um outeiro
distante que se destacava em altura dos outros que existiam no
deserto acidentado. Acampei naquela noite, e, no dia seguinte,
segui avançando para o outeiro, embora aquele objeto parecesse
estar pouca coisa mais perto do que da primeira vez em que o
vira. Na quarta noite, atingi a base do monte, que se mostrou
muito mais alto do que parecera à distância. Um vale interposto
destacava seu perfil da superfície geral. Exausto demais para
subir, dormi à sombra da colina.

Não entendo por que meus sonhos foram tão agitados naquela
noite, mas, antes da curva fantasticamente acentuada da lua
minguante ter-se erguido muito alto acima do lado oriental da
planície, acordei suando frio, decidido a não me deixar
adormecer de novo. As visões como as que havia tido eram
demais para suporta-las de novo. E sob o brilho do luar, percebi
como foram insensatas as minhas caminhadas diurnas. Sem o
ardor do sol escaldante, minha jornada teria-me custado menos
energia. Agora, enfim, eu me sentia perfeitamente capas de
realizar a escalada que me havia intimidado ao entardecer.
Apanhei então o farnel e encaminhei-me para a crista da
elevação.
Já tive a oportunidade de mencionar que a monotonia constante
da planície ondulada era-me uma fonte de impreciso horror, mas
creio que meu horror ficou maior quando alcancei o cume do
monte e olhei para o outro lado, para um imenso vale ou canhão
cujos recessos negros a lua ainda não se havia erguido o
suficiente para iluminar. Senti-me no limiar do mundo, olhando,
por sobre a borda, para um caos insondável de escuridão
perpétua. Em meio a meu terror, perpassaram curiosas
reminiscências do “Paraíso Perdido” 1 e da tenebrosa ascensão
de Satã pelos reinos informe das trevas.
A medida que a Lua foi subindo ao céu, pude notar que as
encostas do vale não eram tão perpendiculares quanto eu
imaginara. Saliências e afloramentos de rocha forneciam apoios
perfeitos para uma descida, além de que, cerca de trinta metros
abaixo, o declive tornava-se bastante ameno.
Impelido por um impulso que não consigo precisar, fui descendo
com dificuldade pelas rochas até parar na encosta menos

íngreme abaixo, de onde fitei as profundezas estígias onde
nenhuma luz jamais penetrara.
De repente, minha atenção foi traída por um objeto enorme e
singular na vertente oposta erguendo-se abruptamente a cerca
de cem jardas à minha frente, um objeto de brilho esbranquiçado
sob os raios da Lua ascendente. De início imaginei que se
tratasse de uma simples rocha gigantesca, mas estava pouco
consciente de que seu contorno e sua posição não eram uma
obra puramente natural. Um exame mais de perto encheu-me de
sensações que não consigo exprimir, pois, apesar de seu
tamanho imenso e sua posição num abismo que ficara
escondido no fundo do mar desde a juventude do mundo,
percebi que o estranho objeto era um monólito bem moldado
cujo vulto maciço havia conhecido o artesanato e, talvez, a
adoração de criaturas vivas e pensantes.
Pasmo e assustado, mas não sem um certo frêmito de…

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