O Quinze – Rachel de Queiroz

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© herdeiros de Rachel de Queiroz, 1930

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ISBN 978-85-0301-150-1

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Ilustrações: Ciro Fernandes

Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Queiroz, Rachel de, 1910-2003
Q47q O quinze [recurso eletrônico] / Raquel de Queiroz. – Rio de Janeiro : José Olympio, 2012.

Formato: ePub
Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions
Modo de acesso: World Wide Web
ISBN 978-85-0301-150-1 [recurso eletrônico]

1. Romance brasileiro. 2. Livros eletrônicos. I. Título.

12-1310
CDD: 869.93
CDU: 821.134.3(81)-3

Sobre a obra
O QUINZE, TÍTULO do romance de estreia (1930), se refere à grande seca de 1915, de que Rachel tanto ouviu falar. A
tradução francesa de O Quinze, publicada em 1986, se chama L’année de la grande sécheresse (O ano da grande seca).
Ceição convence Mãe Nácia a partirem. Vicente quer ficar, salvar o gado. Dona Maroca manda soltar o gado. Chico Bento
vende as reses e parte com a família. Chegará à Amazônia? Não consegue as passagens e vai indo a pé. Um retirante em meio
à seca. A fome e o cangaço.
Aqui está o drama da terra. Que drama é este, que está em O Quinze, no Lampião, em A beata Maria do Egito, em João
Miguel e em certas páginas de Dôra, Doralina e em Memorial de Maria Moura? É o drama da terra, ou o duelo entre o
homem e a terra, numa perspectiva euclidiana de autêntico desafio. Rachel exprime os anseios e angústias da sua região
brasileira, integrada numa dimensão ficcional que se inaugura com A bagaceira, de José Américo de Almeida, em 1928. Livro
verdadeiramente brasileiro, notou Augusto Frederico Schmidt, no artigo com que saudou O Quinze, a 18 de agosto de 1930. E
Schmidt estranhava que não houvesse nenhum derramamento, nenhum sentimentalismo, nesse romance sobre a seca, escrito por
uma jovem. Simplicidade, eis a sua virtude básica.
Sim, livro de pessoa “simples, grave e forte, para quem a vida existe”, concluía Schmidt. Toda a obra posterior de Rachel
está em O Quinze. Nele, há duas ações paralelas – o retirante com o seu drama e a comunicação impossível entre Ceição e
Vicente. Livro no fundo amargo, porque é o livro do amor irrealizado.

Sobre a autora
RACHEL DE QUEIROZ nasceu em 17 de novembro de 1910, em Fortaleza, Ceará. Ainda não havia completado 20 anos, em
1930, quando publicou O Quinze, seu primeiro romance. Mas tal era a força de seu talento, que o livro despertou imediata
atenção da crítica. Dez anos depois, publicou João Miguel, ao qual se seguiram: Caminho de pedras (1937), As três Marias
(1939), Dôra, Doralina (1975) e não parou mais. Em 1992, publicou o romance Memorial de Maria Moura, um grande
sucesso editorial.
Rachel dedicou-se ao jornalismo, atividade que sempre exerceu paralelamente à sua produção literária.
Cronista primorosa, tem vários livros publicados. No teatro escreveu Lampião e A beata Maria do Egito e, na literatura
infantil, lançou O menino mágico (ilustrado por Gian Calvi), Cafute e Pena-de-prata (ilustrado por Ziraldo), Xerimbabo
(ilustrado por Graça Lima) e Memórias de menina (ilustrado por Mariana Massarani), que encantaram a imaginação de
nossas crianças.
Em 1931, mudou-se para o Rio de Janeiro, mas nunca deixou de passar parte do ano em sua fazenda “Não me deixes”, no
Quixadá, agreste sertão cearense, que ela tanto exalta e que está tão presente em toda sua obra.
Uma obra que gira em torno de temas e problemas nordestinos, figuras humanas, dramas sociais, episódios ou aspectos do
cotidiano carioca. Entre o Nordeste e o Rio, construiu seu universo ficcional ao longo de mais de meio século de fidelidade à
sua vocação.
O que caracteriza a criação de Rachel na crônica ou no romance — sempre — é a agudeza da observação psicológica e a
perspectiva social. Nasceu narradora. Nasceu para contar histórias. E que são as suas crônicas a não ser pequenas histórias,
narrativas, núcleos ou embriões de romances?
Seu estilo flui com a naturalidade do essencial. Rachel se integra na vertente do verismo realista, que se alimenta de
realidades concretas, nítidas. O sertão nordestino, com a seca, o cangaço, o fanatismo e o beato, mais o Rio da pequena
burguesia, eis o mundo de nossa Rachel. Um estilo despojado, depurado, de inesquecível força dramática.
Primeira escritora a integrar a Academia Brasileira de Letras (1977), Rachel de Queiroz faleceu no Rio de Janeiro, aos 92
anos, em 4 de novembro de 2003.

1
DEPOIS de se benzer e de beijar duas vezes a medalhinha de São José, dona Inácia concluiu:
“Dignai-vos ouvir nossas súplicas, ó castíssimo esposo da Virgem Maria, e alcançai o que rogamos. Amém.”
Vendo a avó sair do quarto do santuário, Conceição, que fazia as tranças sentada numa rede ao canto da sala, interpelou-a:
— E nem chove, hein, Mãe Nácia? Já chegou o fim do mês… Nem por você fazer tanta novena…
Dona Inácia levantou para o telhado os olhos confiantes:
— Tenho fé em São José que ainda chove! Tem-se visto inverno começar até em abril.
Na grande mesa de jantar onde se esticava, engomada, uma toalha de xadrez vermelho, duas xícaras e um bule, sob o
abafador bordado, anunciavam a ceia:
— Você não vem tomar o seu café com leite, Conceição?
A moça ultimou a trança, levantou-se e pôs-se a cear, calada, abstraída.
A velha ainda falou em alguma coisa, bebeu um gole de café e foi fumar no quarto.
— A bênção, Mãe Nácia! — E Conceição, com o farol de querosene pendendo do braço, passou diante do quarto da avó e
entrou no seu, ao fim do corredor.
Colocou a luz sobre uma mesinha, bem junto da cama — a velha cama de casal da fazenda — e pôs-se um tempo à janela,
olhando o céu. E ao fechá-la, porque soprava um vento frio que lhe arrepiava os braços, ia dizendo:
— Eh! A lua limpa, sem lagoa! Chove não!…
Foi à estante. Procurou, bocejando, um livro. Escolheu uns quatro ou cinco, que pôs na mesa, junto ao farol.
Aqueles livros — uns cem, no máximo — eram velhos companheiros que ela escolhia ao acaso, para lhes saborear um
pedaço aqui, outro além, no decorrer da noite.
Deitou-se vestida, desapertando a roupa para estar à vontade.
Pegou no primeiro livro que a mão alcançou, fez um monte de travesseiros ao canto da cama, perto da luz, e, fincando o
cotovelo neles, abriu à toa o volume.
Era uma velha história polaca, um romance de Sienkiewicz, contando casos de heroísmos, rebeliões e guerrilhas.
Conceição o folheou devagar, relendo trechos conhecidos, cenas amorosas, duelos, episódios de campanha. Largou-o,
tomou os outros — um volume de versos, um romance francês de Coulevain.
E ao repô-los na mesa, lastimava-se:
— Está muito pobre essa estante! Já sei quase tudo decorado!
Levantou-se, foi novamente ao armário. E voltou com um grosso volume encadernado que tinha na lombada, em letras de
ouro, o nome de seu finado avô, livre-pensador, maçom e herói do Paraguai.
Era um tratado em francês, sobre religiões. Bocejando, começou a folheá-lo. Mas, pouco a pouco, qualquer coisa a
interessou. E, deitada, à luz vermelha do farol, que ia enegrecendo o alto da manga com a fumaça preta, na calma da noite
sertaneja, enquanto no quarto vizinho a avó, insone como sempre, mexia as contas do rosário, Conceição ia se embebendo nas
descrições de ritos e na descritiva mística, e soletrava os ásperos nomes com que se invocava Deus, pelas terras do mundo.
Até que dona Inácia, ouvindo o cuco do relógio cantar doze horas, resmungou de lá:
— Apaga a luz, menina! Já é meia-noite!
*
Todos os anos, nas férias da escola, Conceição vinha passar uns meses com a avó (que a criara desde que lhe morrera a
mãe), no Logradouro, a velha fazenda da família, perto do Quixadá.
Ali tinha a moça o seu quarto, os seus livros, e, principalmente, o velho coração amigo de Mãe Nácia.
Chegava sempre cansada, emagrecida pelos dez meses de professorado; e voltava mais gorda com o leite ingerido à força,
resposta de corpo e espírito graças ao carinho cuidadoso da avó.
Conceição tinha vinte e dois anos e não falava em casar. As suas poucas tentativas de namoro tinham-se ido embora com os
dezoito anos e o tempo de normalista; dizia alegremente que nascera solteirona.
Ouvindo isso, a avó encolhia os ombros e sentenciava que mulher que não casa é um aleijão…
— Esta menina tem umas ideias!

Estaria com razão a avó? Porque, de fato, Conceição talvez tivesse umas ideias; escrevia um livro sobre pedagogia,
rabiscara dois sonetos, e às vezes lhe acontecia citar o Nordau ou o Renan da biblioteca do avô.
Chegara até a se arriscar em leituras socialistas, e justamente dessas leituras é que lhe saíam as piores das tais ideias,
estranhas e absurdas à avó.
Acostumada a pensar por si, a viver isolada, criara para o seu uso ideias e preconceitos próprios, às vezes largos, às vezes
ousados, e que pecavam principalmente pela excessiva marca de casa.
2
ENCOSTADO a uma jurema seca, defronte ao juazeiro que a foice dos cabras ia pouco a pouco mutilando, Vicente dirigia a
distribuição de rama verde ao gado. Reses magras, com grandes ossos agudos furando o couro das…

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