M129p
12. ed.
Copyright © MCM — Maria Clara Machado Produções Artísticas Ltda.
Direitos de edição da obra em língua portuguesa no Brasil adquiridos pela Editora Nova Fronteira S.A. Todos os direitos
reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em
qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação etc., sem a permissão do detentor do copirraite.
Editora Nova Fronteira S.A.
Rua Bambina, 25 – Botafogo – 22251-050
Rio de Janeiro – RJ – Brasil
Tel.: (21) 2131-1111 – Fax: (21) 2286-6755
http://www.novafronteira.com.br
e-mail: [email protected]
Editoras responsáveis
Izabel Aleixo
Daniele Cajueiro
Revisão
Ana Carla Sousa
Marília Lamas
Phellipe Marcel
Digitalização e tratamento das imagens
Trio Studio
Diagramação
Ilustrarte Design e Produção Editorial
Impressão
Ediouro Gráfica
Produção de ebook
S2 Books
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
Machado, Maria Clara, 1921-2001
Pluft, o Fantasminha / Maria Clara Machado;
ilustrações Graça Lima. – 12.ed. – Rio de Janeiro :
Nova Fronteira, 2009.
ISBN 978-85-209-3788-4
1. Literatura infanto-juvenil brasileira. I. Lima,
Graça. II. Título.
CDD: 028.5
CDU: 087.5
Sumário
Capa
Ficha catalográfica
Folha de rosto
O TESOURO
OS FANTASMAS
AS DUAS HISTÓRIAS SE ENCONTRAM
FALA DO MARINHEIRO PERNA DE PAU
CONVERSA DE PLUFT E MARIBEL PARA DISFARÇAR O MEDO
DISCURSO DE DESPEDIDA DA MÃE FANTASMA NO EMBARQUE DO FILHO PARA O
MUNDO
A autora
A ilustradora
Esta é uma história de duas histórias.
História de marinheiro e piratas e história de fantasmas.
Duas histórias que um dia se encontraram no sótão de uma casa perdida numa praia perdida
de uma terra longe.
A verdade é que a casa não era tão perdida assim…
No tempo em que o mundo tinha piratas; piratas daqueles que hoje a gente só vê no cinema
ou nos livros…
(Esta história não trata de piratas modernos; eles só eram modernos naquele tempo.)
… Bem, neste tempo antigo, aquela casa era a casa de um bom e velho capitão de navio
chamado Capitão Bonança Arco-Íris. O capitão, que vivia sozinho, tinha uma neta chamada
Maribel, seu maior tesouro.
Um dia o navio dele afundou e ele morreu.
Antes de morrer, disse para seus melhores marinheiros, que eram três: — Cuidem de meu
tesouro — e morreu.
O TESOURO
Os três marinheiros choraram a morte do velho e ficaram pensando no tesouro. Tinham
encontrado um mapa dentro da Bíblia do capitão e resolveram seguir o mapa em busca do
tesouro.
Acontece que o Perna de Pau, um marinheiro muito sem caráter e também ambicioso, ouviu
as últimas palavras do velho Bonança e deste dia em diante não pensava noutra coisa senão no
tesouro do velho.
Queria o tesouro, que devia estar na velha casa desenhada no mapa, e queria também a neta,
para casar com ela e virar homem de bem.
De tanta ambição e vontade de ter tudo sem se esforçar, um dia foi roubar chocolate na
cozinha do navio, tropeçou num caroço de abacate, levou um tombo, quebrou a perna, e como
não havia médico a bordo para costurar a perna no corpo dele, a perna foi jogada ao mar para os
peixes comerem. E ele, coitado…
Teve que gastar todas as economias que tinha ajuntado, roubando cofres das igrejas, para
comprar uma perna de madeira (não sei bem se comprou uma perna de pau-brasil ou de
jacarandá, mas isto não tem importância).
Pois bem, João, Julião e Sebastião eram os três marinheiros. Eram bons, fiéis, amigos,
simpáticos, mas meio broncos. Não entenderam que o tesouro do velho capitão era sua neta
Maribel. Sabiam que tinham de proteger a menina, mas acharam também que precisavam ir à
velha casa da praia buscar um tesouro. Tesouro para gente meio bronca só pode ser dinheiro.
E lá foram eles em busca do tesouro para darem à neta de seu capitão!
João, Julião e Sebastião tinham um grande defeito: gostavam demais de beber — para
tomarem coragem —, e por isso perdiam muito tempo.
Em vez de saírem logo à procura da menina Maribel e da casa da praia, foram andando pelas
cidades e pelos portos. Como estavam com muito medo do Perna de Pau —, sabiam que ele tinha
copiado também o mapa da casa perdida — paravam em todo botequim que encontravam para
tomar coragem dentro de um copinho de pinga.
Esta é uma maneira muito comum de tomar coragem.
E assim, enquanto tomavam coragem, o Perna de Pau chegou primeiro à cidade onde morava,
interna num colégio, a neta Maribel; raptou a pobrezinha e com ela partiu para a casa perdida na
areia branca.
Este é o fim da primeira história.
OS FANTASMAS
A segunda história se passa no sótão da casa perdida na praia.
Era lá que morava Pluft, um fantasminha.
Com ele moravam D. Fantasma, sua mãe, e Tio Gerúndio, velho fantasma de navio que vivia
dormindo dentro de um baú.
Naquele tempo se acreditava em fantasmas.
Hoje também as pessoas pensam em fantasmas, mas fingem que não acreditam porque não
fica bem acreditar nestas coisas.
E as pessoas só gostam de acreditar no que está na moda.
Pois bem, Pluft era um fantasminha muito medroso.
Olhava pela janela, via a praia, o mar tão azul e grande, e tremia de medo.
Não tinha medo do mar porque era azul, mas porque era grande, e ele ainda era um
fantasminha menino, e só via as coisas, de longe, enormes! A mãe dele vivia dizendo que um dia
ia levá-lo ao mundo para ele perder este medo bobo, mas…
Ela também nunca tinha tempo para explicar nada direito.
Isto acontece com muitas mães de hoje também.
D. Fantasma fazia muito tricô para os fantasminhas pobres.
Passava os dias na sua cadeira de balanço que rangia, como é dever de toda cadeira velha.
Na cadeira, ela, além de tricotar, de vez em quando mergulhava seus pensamentos no seu
tempo de mocinha e começava a cantar pedaços de ópera.
Também outra coisa que distraía a Sra. Fantasma era conversas no telefone com sua prima D.
Bolha de Sabão. Ficavam horas trocando novidades. D. Fantasma se divertia muito com estas
conversas. D. Bolha trabalhava na polícia secretíssima dos fantasmas e sempre sabia de coisas
importantíssimas, como casamentos, promoções (gente que sobe de posto, nem sempre fazendo
esforço), chás de caridade e outras novidades de que pessoas e fantasmas acham graça porque
ajudam a passar mais depressa o tempo.
E Pluft ficava olhando o mar.
Pensando.
Pensando nas histórias que Tio Gerúndio contava quando ele era menorzinho.
Antigamente Tio Gerúndio falava muito do mar.
Tinha sido fantasma de navio.
Mas, com a idade — já era tão velho que tinha perdido o gosto de contar histórias —, vivia
dormindo e roncando dentro do baú —, e roncava coisas sem nexo —, às vezes parecia ronco de
peixe, às vezes parecia ronco de velhos marinheiros.
Isto era Pluft que achava, porque para mim peixe não ronca.
Mas Pluft achava que roncava; roncos de baleias velhas com cauda de gente.
Pluft nunca tinha visto nem gente nem baleia, por isso com certeza misturava tudo e achava
que gente podia ter rabo de baleia e baleia podia ter rabo de gente!
Tudo que Tio Gerúndio contava Pluft misturava — e fazia outras histórias. Histórias para
pensar sozinho enquanto olhava o mar azul…
De tanto misturar histórias começou a acreditar que gente era o pior bicho que havia no
mundo.
Que gente comia fantasmas, imaginem vocês. E que comia outras gentes!
E matava os pobres peixinhos!
Chegou até a inventar uma história de um tubarão bonzinho (vê se pode!) que estava
amolando seus dentinhos numa pedra à beira de um rio verde, cantando “eu fui no Tororó beber
água não achei…” (cação cantando, vê se pode!), quando chegou um terrível marinheiro e deu
um soco no tubarão, que desmaiou de pavor e logo morreu de dor de barriga (dor de barriga em
tubarão, vê se pode!).
Tio Gerúndio, que era muito sabido, em vez de lhe explicar melhor as coisas, só sabia dormir
e comer pastéis de vento.
Tomara fastio de tudo que era do mundo…
…menos de pastéis de vento.
Isto era outra coisa que a Sra. Fantasma gostava de fazer.
Pastéis de vento.
Distraía muito.
Ia à janela da cozinha e ficava à espera do melhor vento sudoeste.
Enquanto esperava cantava ópera.
E parece que naquele tempo o canto da Sra. Fantasma atraía mesmo vento favorável —
Venha, Zéfiro. Venha, Zéfiro! — (palavra difícil) cantava ela.
Às vezes, impaciente, ela usava mesmo o forte vento norte, mas os pastéis saíam sempre
estufados e arrebentavam logo.
Coisas de fantasmas que a gente não precisa entender bem.
Como dizia…
A Sra. Fantasma gostava também de cantar.
Seu marido tinha sido fantasma de ópera.
Ela ia muito com ele assistir às cantoras famosas que recebiam aplausos e flores. Achava que
devia ser muito agradável receber aplausos e flores e decorou todas as óperas que davam mais
aplausos e mais flores.
“Coisas de gente”, dizia ela, e contava essas histórias para Pluft.
Mas, como sempre, não explicava muito bem as histórias e continuava a tricotar ou a fazer
pastéis, e Pluft tornava a seu cantinho da janela, pensativo.
Foi aí que inventou a história de uma tainha que cantava ópera e que era casada com um
marinheiro-caçador de vento noroeste.
Um dia, de tanto gritar com o marido marinheiro, por causa de um pastel que tinha estufado
antes do tempo, a tainha ficou tão rouca que quando foi cantar naquela noite no teatro, em vez de
sair música de sua goela, saiu um vento terrível, tão terrível que trouxe o mar todo para dentro do
teatro, e o mar afogou todos que estavam assistindo à ópera.
Os espectadores, para não morrerem afogados, davam aplausos, jogavam flores e comiam
pastéis feitos pela Mãe Fantasma, que nunca trabalhou tanto como naquela noite.
Tudo faziam para ver se se salvavam.
E todos os fantasmas do teatro — comandados pelo seu pai — fizeram uma enorme bagunça
de assustar gente.
Daquela noite em diante o teatro…





