As Meninas – Lygia Fagundes Telles

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Lygia Fagundes Telles

As Meninas

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livro livremente.
Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim
você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras.

OBRAS DA AUTORA

Praia Viva (contos). São Paulo, Livraria Martins Editora, 1944.
O Cacto Vermelho (contos). Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de
Letras. São Paulo, Editora Mérito, 1949.
Ciranda de Pedra (romance). Rio de Janeiro, Edições O Cruzeiro, 1954; 4a
edição, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1973.
Histórias do Desencontro (contos). Prêmio Instituto Nacional do Livro. Rio de
Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1958.
Verão no Aquário (romance). São Paulo, Livraria Martins Editora, 1963; 3a
edição, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1973.
Histórias Escolhidas (contos). Prêmio Boa Leitura. São Paulo, Livraria Martins
Editora, 1964.
Gaby (novela) em Os Sete Pecados Capitais (obra coletiva). Rio de Janeiro,
Editora Civilização Brasileira, 1964.
O Jardim Selvagem (contos). Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. São
Paulo, Livraria Martins Editora, 1965.
“Trilogia da Confissão” em Os 18 Melhores Contos do Brasil (trabalhos
premiados no 1 Concurso Nacional de Contos, promovido pelo Governo
do Paraná) Rio de Janeiro, Bloch Editores, 1968.
Antes do Baile Verde (contos). Rio de Janeiro, Bloch Editores, 1970; 2.ª edição,
revista e aumentada, prefácio de Fábio Lucas. Rio de Janeiro/Brasília,
Livraria José Olympio Editora/Instituto Nacional do Livro, 1971, Prêmio
Guimarães Rosa, da Fundepar (Paraná).
Seleta. Organização, estudo e notas da professora Nelly Novaes Coelho. Rio de
Janeiro/Brasília, Livraria José Olympio Editora/Instituto Nacional do
Livro, 1971.

LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA

apresenta o romance de

LYGIA FAGUNDES TELLES

As Meninas

Prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras

5
ª
. EDIÇÃO
1974

RIO DE JANEIRO

Capa
Eugenio Hirsch

Contracapa
Foto Pirozelli

Copyright © 1973 by Lygia Fagundes Telles

Direitos desta edição reservados à
LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA, S.A.
Rua Marquês de Olinda, 12
Rio de Janeiro — República Federativa do Brasil
Printed in Brazil / Impresso no Brasil

FICHA CATALOGRÁFICA
(Preparada pelo Centro de Catalogação-na-fonte do
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, GB)

Teles, Lygia Fagundes, 1923 –
T272m As Meninas por Lygia Fagundes Telles. 5.ª ed. Rio de Janeiro,
J. Olympio, 1974.
266 p., 21 cm.

1. Romance brasileiro. I. Título.

74-0398 CDD — 869.93
CDU — 869.0 (81)-31

NOTA DA EDITORA
DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS DA AUTORA

Lygia Fagundes Telles é paulista, filha de Durval de Azevedo Fagundes e
Maria do Rosário de Azevedo Fagundes. Passou a infância no interior do Estado,
em pequenas cidades onde seu pai foi delegado e promotor público: Areias, Assis.
Apiaí, Sertãozinho… Voltando à capital, cursou o ginásio do Instituto de
Educação Caetano de Campos, tendo sido aluna do professor Silveira Bueno, de
quem recebeu os primeiros incentivos para a carreira literária. Durante o curso
secundário escreveu suas primeiras histórias, reunindo as num pequenino livro
que viria a destruir anos depois porque, em sua opinião, a pouca idade não
justifica o mau livro “Hoje, uma jovem de quinze anos fuma, bebe, lê Kafka,
discute sexo, enfim, ousa tudo. Eu, com essa idade era só ignorância e medo.
Diplomando-se na Escola Superior de Educação Física, ingressou então na
Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, estava ainda na Faculdade
quando seu livro de contos Praia Viva foi publicado pela Martins em 1944. Foi
publicado pela Martins em 1944. Em 1949, já casada e residindo no Rio de
Janeiro, publicou pela Editora Mérito O Cacto Vermelho, contos, Prêmio
Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras. Seu primeiro romance,
Ciranda de Pedra, saiu em 1954 nas Edições O Cruzeiro e alcança agora a
quarta edição, lançada por esta Casa. Histórias do Desencontro, Prêmio do
Instituto Nacional do Livro, foi editado por nós em 1958. Cinco anos depois a
Martins publicou Verão no Aquário, cuja terceira edição apresentamos em
nossa Coleção Sagarana. Histórias Escolhidas, Prêmio Boa Leitura, lançou-o a
Martins em 1964. No mesmo ano Lygia contribuiu com a novela Gaby para
ilustrar o capitulo reservado à Preguiça na coletânea Os Sete Pecados
Capitais, pela Editora Civilização Brasileira e na qual colaboraram também João
Guimarães Rosa, Otto Lara Resende, Carlos Heitor Cony, Mário Donato,
Guilherme Figueiredo e José Condé. Em 1965 seu livro de contos O Jardim
Selvagem, Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, foi editado pela
Martins. “Trilogia da Confissão”, trabalho premiado no I Concurso Nacional de
Contos promovido pelo Governo do Paraná, figura hoje em Os 18 melhores
contos do Brasil, volume lançado em 1968 por Bloch Editores, que também

publicara, em 1970, os contos enfeixados em Antes do Baile Verde, cuja
segunda edição, revista e aumentada, foi por nós publicada em 1971, em
convênio com o INL. Traduzido por Georgette Tavares Bastos, o conto “Antes
do Baile Verde” conquistou em 1969, em Cannes, o Grande Prêmio
Internacional Feminino para Estrangeiros, em língua francesa, ao qual
concorreram 360 manuscritos de 21 países. Em 1971 lançamos em nossa Coleção
Brasil Moço e também em convênio com o INL uma Seleta de Lygia Fagundes
Telles, com organização, estudo e notas da professora Nelly Novaes Coelho.
Lygia Fagundes Telles é procuradora do Instituto de Previdência do
Estado de São Paulo. Casada com o crítico de cinema e professor universitário
Paulo Emílio Salles Gomes, mora atualmente na capital paulista. Tem um filho
adolescente, Goffredo Telles Neto. Integra o Corpo Deliberativo de Cultura do
Estado de São Paulo. A convite de instituições culturais, tem pronunciado
conferências em cidades brasileiras, bem como nos Estados Unidos. Também em
Portugal, onde tem diversos livros publicados. Foi distinguida pela Fundepar
(do Paraná) por seu conjunto de obra Premio Guimarães Rosa, 1972.

Rio de janeiro, setembro
de 1974

“Ana Clara, não envesga” disse a irmã
Clotilde na hora de bater a foto. Enfia
a blusa na calça, Lia, depressa. E não
faça careta, Lorena, você está fazendo
careta!”A pirâmide.

As Meninas

um

Sentei na cama. Era cedo para tomar banho. Tombei para trás,
abracei o travesseiro e pensei em M.N., a melhor coisa do mundo não é
beber água de coco verde e depois mijar no mar, o tio da Lião disse isso
mas ele não sabe, a melhor coisa mesmo é ficar imaginando o que M.N.
vai dizer e fazer quando cair meu último véu. O último véu! escreveria
Lião, ela fica sublime quando escreve, começou o romance dizendo que
em dezembro a cidade cheira a pêssego, Imagine, pêssego. Dezembro é
tempo de pêssego, está certo, às vezes a gente encontra as carroças de
frutas nas esquinas com o cheiro de pomar em redor mas concluir daí
que a cidade inteira fica perfumada, já é sublimar demais. Dedicou a
história a Guevara com um pensamento importantíssimo sobre a vida e a
morte, tudo em latim. Imagine se entra latim no esquema guevariano.
Ou entra? E se ele gostava de latim. Eu não gosto? Nas horas nobres,
deitava no chão, cruzava as mãos debaixo da cabeça e ficava olhando as
nuvens e latinando, a morte combina muito com latim. Não tem coisa
que combine tanto com latim como a morte. Mas aceitar que esta cidade
cheira a pêssego, exorbita. Qué ciudad será esa? ele perguntaria na maior
perplexidade. Tercer Mundo? Terceiro Mundo. Y huele a durazno? Na
opinião de Lia de Melo Schultz, cheira. Ele então fecharia os olhos onde
eram os olhos e sorriria um sorriso onde era a boca. Estoy bien listo con
esas mis discípulas. Enfim, problema dela, o meu é M.N., um M.N. nu em
pêlo, muito mais em pêlo do que eu, ele é peludo à beca, assim na base
do macaco. Mas um macaco lindo, a cara tão intelectual, tão rara, o olho
direito um pouco menor do que o esquerdo e tão triste, todo um lado da
sua cara é infinitamente mais triste do que o outro. Infinitamente. Eu
poderia ficar repetindo infinitamente infinitamente. Uma simples
palavra que se estende por rios, montes, vales infinitamente compridos
como os braços de Deus. As palavras. Os gestos se renovando como a
pele da cobra rompendo lisa sob a pele velha. E não é viscosa, toquei
nela na fazenda, era verde e espessa mas não viscosa. O gesto de M.N.
também novo, não é verdade que tudo será como das outras vezes, ele
virá de pele limpa, inventando o inventado nas suas minúcias. Se Deus

está no pormenor, o gozo mais agudo também está na miudeza, ouviu
isto, M.N.? Ana…

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