Água VivaÁgua Viva
Clarice LispectorClarice Lispector
Editora Rocco
Digitalização: Leticia Beze
Penguin’s Phlog:
Tinha que existir uma pintura totalmente
livre da dependência da figura – o objeto – que,
como a música, não ilustra coisa
alguma, não conta uma história e não lança
um mito. Tal pintura contenta-se em evocar
os reinos incomunicáveis do espírito,
onde o sonho se torna pensamento, onde o
traço se torna existência.
Michel Seuphor
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E com uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu,
aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação
mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais.
Continuo com capacidade de raciocínio – já estudei matemática que é a
loucura do raciocínio -quero me alimentar diretamente da placenta.
Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo
instante é o desconhecido. O próximo instante é feito por mim?
Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de toureiro
na arena.
Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do
instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo
instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela
é. Quero apossar-me do é da coisa. Esses instantes que decorrem no ar
que respiro: em fogos de artifício eles espocam mudos no espaço. Quero
possuir os átomos do tempo. E quero capturar o presente que pela sua
própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me
escapa, a atualidade sou eu sempre no já. Só no ato do amor – pela límpida
abstração de estrela do que se sente—capta-se a incógnita do instante
que é duramente cristalina e vibrante no ar e a vida é esse instante
incontável, maior que o acontecimento em si: no amor o instante de
impessoal jóia refulge no ar, glória estranha de corpo, matéria
sensibilizada pelo arrepio dos instantes – e o que se sente é ao mesmo
tempo que imaterial tão objetivo que acontece como fora do corpo,
faiscante no alto, alegria, alegria é matéria de tempo e é por excelência
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o instante. E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. E
canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro. E meu canto é de
ninguém. Mas não há paixão sofrida em dor e amor a que não se siga uma
aleluia.
Meu tema é o instante? meu tema de vida. Procuro estar a par
dele, divido-me milhares de vezes em tantas vezes quanto os instantes que
decorrem, fragmentária que sou e precários os momentos – só me
comprometo com vida que nasça com o tempo e com ele cresça: só no
tempo há espaço para mim.
Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o sabor-a-ti é
abstrato como o instante. é também com o corpo todo que pinto os meus
quadros e na tela fixo o incorpóreo, eu corpo-a-corpo comigo mesma. Não
se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro.
Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e às
minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto
necessidade de palavras – e é novo para mim o que escrevo porque minha
verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta
dimensão.
Hoje acabei a tela de que te falei: linhas redondas que se
interpenetram em traços finos e negros, e tu, que tens o hábito de querer
saber por quê – e porque não me interessa, a causa é matéria de passado –
perguntarás por que os traços negros e finos? é por causa do mesmo
segredo que me faz escrever agora como se fosse a ti, escrevo redondo,
enovelado e tépido, mas às vezes frígido como os instantes frescos, água
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do riacho que treme sempre por si mesma. O que pintei nessa tela é
passível de ser fraseado em palavras? Tanto quanto possa ser implícita a
palavra muda no som musical.
Vejo que nunca te disse como escuro música – apóio de leve a mão na
eletrola e a mão vibra espraiando ondas pelo corpo todo: assim ouço
a eletricidade da vibração. Substrato último no domínio da realidade, e o
mundo treme nas minhas mãos.
E eis que percebo que quero para mim o substrato vibrante da palavra
repetida em canto gregoriano. Estou consciente de que tudo que sei não
posso dizer, só sei pintando ou pronunciando, sílabas cegas de sentido.
E se tenho aqui que usar-te palavras, elas têm que fazer um sentido
quase que só corpóreo, estou em luta com a vibração última. Para te
dizer o meu substrato faço uma frase de palavras feitas apenas dos
instantes-já. Lê então o meu invento de pura vibração sem significado
senão o de cada esfuziante sílaba, lê o que agora se segue: “com o correr
dos séculos perdi o segredo do Egito, quando eu me movia em
longitude, latitude e altitude com ação energética dos elétrons,
prótons, nêutrons, no fascínio que é a palavra e sua sombra”. Isso que te
escrevi é um desenho eletrônico e não tem passado ou futuro: é
simplesmente já.
Também tenho que te escrever porque tua seara é a das
palavras discursivas e não o direto de minha pintura. Sei que são primárias
as minhas frases, escrevo com amor demais por elas e esse amor supre
as faltas, mas amor demais prejudica os trabalhos. Este não é um livro
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porque não é assim que se escreve. O que escrevo é um só clímax? Meus
dias são um só clímax: vivo à beira.
Ao escrever não posso fabricar como na pintura, quando fabrico
artesanalmente uma cor. Mas estou tentando escrever-te com o corpo todo,
enviando uma seta que se finca no ponto tenro e nevrálgico da palavra.
Meu corpo incógnito te diz: dinossauros, ictiossauros e plessiossauros, com
sentido apenas auditivo, sem que por isso se tornem palha seca, e sim
úmida. Não pinto idéias, pinto o mais inatingível “para sempre”. Ou
“para nunca”, é o mesmo. Antes de mais nada, pinto pintura. E antes
de mais nada te escrevo dura escritura. Quero como poder pegar com a
mão a palavra. A palavra é objeto? E aos instantes eu lhes tiro o sumo
da fruta. Tenho que me destituir para alcançar cerne e semente de
vida. O instante é semente viva.
A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o
que tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo
de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas –
escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me
dando a grande medida do silêncio.
E se eu digo “eu” é porque não ouso dizer “tu”, ou “nós” ou “uma
pessoa”, sou obrigada à humildade de me personalizar me apequenando
mas sou o és-tu.
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Sim, quero a palavra última que também é tão primeira que já se
confunde com a parte intangível do real. ainda tenho medo de me
afastar da lógica porque caio no instintivo e no direto, e no futuro: a
invenção do hoje é o meu único meio de instaurar o futuro. Desde já é
futuro, e qualquer hora é hora marcada. Que mal porém tem eu me
afastar da lógica? Estou lidando com a matéria-prima. Estou atrás do
que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu
simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais. Estou em
um estado muito novo e verdadeiro, curioso de si mesmo, tão
atraente e pessoal a ponto de não poder pintá-lo ou escrevê-lo. Parece com
momentos que tive contigo, quando te amava, além dos quais não pude ir
pois fui ao fundo dos momentos. É um estado de contato com a energia
circundante e estremeço. Uma espécie de doida, doida harmonia. Sei
que p meu olhar deve ser o de uma pessoa primitiva que se entrega toda
ao mundo, primitiva como os deuses que só admitem vastamente o bem e o
mal e não querem conhecer o bem enovelado como em cabelos no mal, mal
que é o bom.
Fixo instantes súbitos que trazem em si a própria morte e outros
nascem – fixo os instantes de metamorfose e é de terrível beleza a sua
seqüência e concomitância.
Agora está amanhecendo e a aurora é de neblina branca nas areias da
praia. Tudo é meu, então. Mal toco em alimentos, não quero me despertar
para além do despertar do dia. Vou crescendo com o dia que ao crescer me
mata certa vaga esperança e me obriga a olhar cara a cara o duro sol. A
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ventania sopra e desarruma os meus papéis. Ouço esse vento de gritos,
estertor de pássaro aberto em oblíquo vôo. E eu aqui me obrigo à
severidade de uma linguagem tensa, obrigo-me à nudez de um esqueleto
branco que está livre de humores. Mas o esqueleto é livre de vida e
enquanto vivo me estremeço toda. Não conseguirei a nudez final. E ainda
não a quero, ao que parece.
Esta é a vida vista pela vida. Posso não ter sentido mas é a mesma
falta de sentido que tem a veia que pulsa.
Quero…





