Jogo do Bicho – Machado de Assis

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Jogo do Bicho
— ❦ —
Machado de Assis

Jogo do Bicho
Versão Atualizada
2026

Machado de Assis

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Nota editorial
“Jogo do bicho” é um dos contos
tardios de Machado de Assis (1839–1908),
publicado no Almanaque Brasileiro
Garnier em janeiro de 1904, quatro anos
antes da morte do escritor. É Machado
em plena maturidade: em poucas
páginas, acompanha a rotina de Camilo,
um modesto escriturário de arsenal, e o
fascínio silencioso que a loteria informal
do bicho exerce sobre quem sonha, dia
após dia, com a virada de sorte que
nunca chega inteira.

O conto é uma pequena obra-prima de
ironia. O narrador machadiano observa,
com malícia e ternura, a aritmética das
esperanças humanas — as contas que
Camilo faz e refaz para não enxergar o
próprio prejuízo, a fé que “abala
montanhas” e a alegria da mulher que
sustenta a casa apesar de tudo. O final,
exato até o último vintém, é uma das
conclusões mais delicadas e certeiras do
autor.

Esta edição apresenta o texto em uma
versão atualizada para o português de
hoje, com ortografia e construções
modernizadas para tornar a leitura mais
fluente, preservando integralmente o
enredo, os diálogos, a ironia e o estilo do
original. As notas ao final esclarecem
termos de época — o dinheiro em réis, as
gírias, as expressões — e registram as
escolhas de vocabulário feitas nesta
atualização.

1
Jogo do Bicho

Camilo — ou Camilinho, como alguns o
chamavam por amizade — tinha um
emprego de escriturário em um dos
arsenais do Rio de Janeiro (o da Marinha
ou o da Guerra). Ganhava duzentos mil-
réis por mês, sujeitos aos descontos da
taxa e do montepio. Era solteiro; mas um
dia, nas férias, foi passar a noite de Natal
na casa de um amigo, no subúrbio do
Rocha. Lá viu uma criaturinha modesta,
de vestido azul e olhos pedintes. Três
meses depois, estavam casados.

2
Nenhum dos dois tinha nada. Ele, só o
emprego; ela, as mãos e as pernas para
cuidar da casa inteira, que era pequena,
e para ajudar a velha negra que a tinha
criado e que a acompanhava sem
receber salário.

3
Foi essa velha que fez o casamento sair
mais depressa. Não que tivesse dado tal
conselho; a rigor, achava melhor que a
moça ficasse com a tia viúva, sem
obrigações nem filhos. Mas ninguém lhe
pediu opinião. Um dia, porém, ela
comentou que, se a filha de criação se
casasse, iria servi-la de graça. A frase foi
contada a Camilo, e Camilo resolveu
casar dois meses depois. Se tivesse
pensado um pouco, talvez não casasse
tão cedo: a velha já tinha muita idade,
eles eram jovens etc. Mas a ideia de que
ela os serviria de graça entrou como
verba eterna no orçamento.
Germana — assim se chamava —
cumpriu a palavra dada.
— Um caco de gente sempre pode fazer
uma panela de comida — disse ela.

4
Um ano depois, o casal tinha um filho,
e a alegria que ele trouxe compensou os
gastos que traria. Joaninha, a esposa,
dispensou ama de leite: tanto era o leite,
e tamanha a saúde — sem contar a falta
de dinheiro; embora, verdade seja dita,
nem tenham pensado nisso.
Para o jovem funcionário, tudo era
alegria, tudo era esperança. Ia haver uma
reforma no arsenal, e ele seria
promovido. Enquanto a reforma não
vinha, abriu-se uma vaga por morte, e
ele acompanhou o enterro do colega
quase rindo. Em casa, não se conteve e
riu. Explicou à mulher tudo o que ia
acontecer, os nomes dos dois que seriam
promovidos: um tal de Botelho,
protegido do general , e ele. A promoção
veio — e contemplou Botelho e outro.

5
Camilo chorou desesperado, deu
murros na cama, na mesa e em si
mesmo.
— Tenha paciência — dizia Joaninha.
— Que paciência? Faz cinco anos que eu
marco passo…
Interrompeu-se. Aquela palavra, da
linguagem militar, aplicada por um
funcionário do arsenal, foi como água na
fervura: consolou-o. Camilo gostou de si
mesmo. Chegou a repeti-la aos colegas
mais próximos.
Tempos depois, quando se voltou a
falar em reforma, Camilo foi procurar o
ministro e disse:
— Veja Vossa Excelência que há mais de
cinco anos eu vivo marcando passo.

6
O grifo serve para marcar a ênfase que
ele deu ao final da frase. Pareceu-lhe que
causava boa impressão no ministro —
embora todo mundo usasse a mesma
imagem: funcionários, comerciantes,
juízes, industriais etc. etc.
Não houve reforma; Camilo se
acomodou e foi vivendo. A essa altura já
tinha algumas dívidas, recebia o salário
adiantado com desconto, procurava
trabalhos por fora, às escondidas. Como
eram jovens e se amavam, o mau tempo
trazia a ideia de um céu perpetuamente
azul.
Apesar dessa explicação, houve uma
semana em que a alegria de Camilo foi
extraordinária. Vocês vão ver. Que a
posteridade me ouça: Camilo, pela
primeira vez, jogou no bicho.

7
Jogar no bicho não é um eufemismo,
como “matar o bicho”. O jogador escolhe
um número, que por convenção
representa um bicho; se esse número
calha de ser o final do prêmio maior da
loteria, todos os que arriscaram nele os
seus vinténs ganham — e todos os que
confiaram em outros bichos perdem.
Começou com vinténs, e dizem que hoje
já anda pelos contos de réis; mas vamos
ao nosso caso.

8
Na primeira vez em que jogou no
bicho, Camilo escolheu o macaco e,
entrando com cinco tostões, ganhou não
sei quantas vezes mais. Achou aquilo um
despropósito tão grande que não quis
acreditar; mas afinal foi obrigado a
acreditar, ver e receber o dinheiro.
Naturalmente voltou ao macaco duas,
três, quatro vezes, mas o animal, meio
homem, falhou às esperanças do
primeiro dia.
Camilo recorreu a outros bichos, sem
sorte melhor, e o lucro inteiro voltou
para a gaveta do bicheiro. Entendeu que
era melhor descansar por um tempo;
mas não há descanso eterno, nem
mesmo o das sepulturas: um dia lá vem a
mão do arqueólogo pesquisar os ossos e
as idades. Camilo tinha fé. E a fé abala
montanhas.

9
Tentou o gato, depois o cachorro,
depois o avestruz; como nunca tinha
jogado neles, podia ser que… Não pôde
ser: a sorte igualou os três animais, não
fazendo nenhum deles dar nada.
Não queria seguir os palpites dos
jornais, como faziam alguns amigos.
Camilo perguntava como é que meia
dúzia de pessoas, escrevendo notícias,
podia adivinhar os números do prêmio.
Certa vez, para provar o erro, concordou
em aceitar um palpite, comprou no gato
— e ganhou.
— E então? — perguntaram os amigos.
— Nem sempre a gente perde —
respondeu ele.
— Acaba-se ganhando sempre —
emendou um. — A questão é tenacidade:
não afrouxar nunca.

10
Apesar disso, Camilo continuou com
os próprios cálculos. No máximo, cedia a
certos sinais que pareciam vir do céu,
como a frase de uma criança na rua:
“Mamãe, por que a senhora não joga hoje
na cobra?” Ia na cobra e perdia;
perdendo, explicava o fato a si mesmo
com os melhores raciocínios deste
mundo — e a razão fortalecia a fé.

11
Em vez da reforma da repartição, veio
um aumento de salário, cerca de
sessenta mil-réis mensais. Camilo
resolveu batizar o filho e escolheu para
padrinho nada menos que o próprio
sujeito que lhe vendia os bichos, o
banqueiro do jogo. Não havia entre eles
nenhuma relação de família; parece até
que o homem era um solteirão sem
parentes. O convite foi tão inesperado
que quase o fez rir; mas o homem viu a
sinceridade do rapaz, achou a escolha
muito honrosa e aceitou com prazer.
— Não é festa de casaca, é?
— Que casaca, nada! Coisa modesta.
— Nem carro?
— Carro…
— Para que carro?

12
— É… basta ir a pé. A igreja é perto, na
outra rua.
— Pois então a pé.
Qualquer pessoa esperta já descobriu
que a ideia de Camilo era que o batizado
fosse de carro. Também descobriu, pela
hesitação e pelo jeito, que dentro dessa
ideia morava outra: a de deixar que o
carro fosse pago pelo padrinho; se o
padrinho não pagasse, ninguém pagaria.

13
Fez-se o batizado, o padrinho deixou
uma lembrança para o afilhado e
prometeu, rindo, que um dia lhe daria
um prêmio na águia. A brincadeira
explica a escolha do pai: Camilo
desconfiava que o bicheiro tinha parte
na boa sorte dos bichos, e quis ligar-se a
ele por um laço espiritual. Não jogou
logo na águia, “para não espantar”, disse
consigo mesmo; mas não esqueceu a
promessa, e um dia, em tom de riso,
lembrou ao bicheiro:
—…

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